A entrevista de Julian Jessop no The Peter McCormack Show, intitulada "The State Has Become a Monster", acende um alerta sobre a saúde econômica do Reino Unido. De acordo com Jessop, economista e consultor, o país vive uma deterioração econômica significativa desde a crise financeira global de 2008, marcada por uma série de decisões políticas equivocadas e um estado cada vez mais inchado. Mas o que isso significa na prática, especialmente para quem trabalha no digital?
A discussão central gira em torno da produtividade, que Jessop descreve como "o número mais importante que os economistas se preocupam". A produtividade, em termos simples, mede a produção por hora trabalhada, sendo o motor principal para o aumento do padrão de vida e dos salários. Quando ela cai, o impacto é sentido no bolso de todos. E o Reino Unido, assim como muitos outros países, viu esse indicador despencar após 2008, sem que os especialistas cheguem a um consenso sobre suas causas exatas – embora muitos apontem para políticas erradas como grandes culpadas.
O Gigantismo do Estado e Seus Efeitos Colaterais
Julian Jessop é categórico: o "estado simplesmente ficou grande demais". Esse gigantismo se manifesta não apenas nos números de dívida pública e carga tributária – que no Reino Unido estão em níveis recorde pós-guerra – mas também na intervenção excessiva em diversos mercados. O economista aponta para os mercados de trabalho, energia e habitação como exemplos onde a mão do governo, ao invés de ajudar, tem agravado a crise do custo de vida e diminuído a eficiência econômica.
Essa intervenção, muitas vezes, é justificada por "políticas baseadas em vibe", ou seja, decisões que parecem populares mas carecem de base em evidências. Jessop cita o exemplo da proposta do Partido Verde de limitar a remuneração de executivos a 10 vezes o salário do empregado de menor remuneração. Embora a ideia soe justa, as implicações práticas seriam desastrosas, como a inviabilidade de atrair grandes talentos em áreas como o futebol (o que impactaria a Premier League, por exemplo). Tais políticas, por mais que pontuem bem nas pesquisas de opinião (60-70% de aprovação no exemplo citado), ignoram a complexidade econômica e os potenciais efeitos adversos.
A "Autoflagelação" Econômica do Reino Unido
Para muitos economistas, a situação atual do Reino Unido é vista como um "autocídio econômico" ou "self harm", onde o país se prejudica com as próprias políticas. A raiz do problema frequentemente é atribuída a uma aversão a princípios de livre mercado. Segundo Jessop, enquanto alguns pessimistas culpam uma desaceleração estrutural após a revolução da TI nos anos 90, essa visão está "claramente desatualizada" com a chegada da revolução da IA. O problema não é falta de inovação, mas sim "erros de política".
A pandemia de COVID-19 é vista como um catalisador desse intervencionismo. Durante a crise, o governo britânico assumiu um papel central na gestão da economia e no auxílio à população, o que, para Jessop, enraizou a cultura de que "se há um problema, a solução é mais governo, e não menos". Essa mentalidade levou a iniciativas como o "Eat Out to Help Out" (comer fora para ajudar) do ex-chanceler Rishi Sunak – um programa criticado por ser mal concebido – e até a tentativas de controle de preços em supermercados, um setor já altamente competitivo com margens minúsculas.
O foco, argumenta Jessop, deveria ser na oferta, não na demanda. Por exemplo, o Reino Unido importa óleo e gás da Noruega, enquanto possui reservas próprias no Mar do Norte. Por que não extrair mais internamente para reduzir a dependência e os custos? Da mesma forma, a falta de reformas no planejamento urbano impede a construção de mais moradias e infraestrutura, impactando diretamente a qualidade de vida e a capacidade produtiva do país.
Impostos, Regulação e o Mercado de Trabalho
Um dos pontos mais críticos levantados é a carga tributária e o excesso de regulação. O sistema tributário britânico, com suas "90 taxas", é descrito como um "peso morto massivo" que sufoca o crescimento. Jessop compara a situação atual com a era de Margaret Thatcher e Liz Truss, apontando que, apesar das intenções de promover o crescimento, as políticas recentes de Truss foram, em última análise, vistas como economicamente incompetentes por muitos críticos, resultando em seu breve mandato.
No mercado de trabalho, a intervenção do governo tem gerado desincentivos. Aumentos no salário mínimo nacional e regulamentações adicionais tornam menos atraente para empregadores contratarem jovens sem experiência. Jessop e McCormack compartilham experiências pessoais de primeiros empregos sem garantias ou direitos extensivos, sugerindo que a rigidez atual do mercado pode estar prejudicando justamente quem mais precisa de uma porta de entrada – os jovens.
A discussão levanta que a desigualdade, diferentemente do que muitos pregam, "tem se mantido estável por décadas e, em muitos casos, até caiu". O problema real não seria a desigualdade em si, mas a falta de incentivos para a criação de riqueza e os desincentivos ao trabalho, com muitos optando por benefícios sociais em vez de emprego remunerado. A taxa de desemprego entre jovens, que cresceu durante a COVID-19 e a crise financeira global, é um sintoma claro disso, agravado por exigências regulatórias que desestimulam a contratação.
Democracia, Votos de Protesto e a Busca por Sanidade Econômica
Julian Jessop questiona se o problema é estruturalmente democrático: "Enquanto os políticos estão perseguindo votos e ouvindo pesquisas de opinião, em vez de fazer uma análise de política baseada em evidências, então acho que esse problema vai persistir." Essa busca por políticas populares em detrimento de decisões economicamente sensatas é um "problema de democracia" onde os eleitores, por vezes, apoiam propostas inviáveis.
A ascensão de partidos como o Reform UK e o crescimento do Partido Verde refletem um descontentamento generalizado. Eleitores insatisfeitos com a política tradicional e os partidos de sempre (Conservadores e Trabalhistas) buscam alternativas, mas nem sempre essas alternativas oferecem soluções realistas. A questão que paira é se o Reino Unido precisa de um "momento Milei" – referindo-se ao presidente argentino Javier Milei, conhecido por suas políticas de choque liberal – para restaurar a sanidade econômica.
Jessop pondera sobre o tamanho ideal do estado, concluindo que ele deveria ser "muito menor". No entanto, ele reconhece que há setores, como o Serviço Nacional de Saúde (NHS), que são protegidos por uma forte defesa pública, dificultando reformas. A falha do governo em tecnologia, como exemplificado por projetos que não saem do papel, é outro sintoma de um estado ineficiente.
Apesar do cenário desafiador, Julian Jessop expressa uma ponta de esperança, embora não detalhe onde essa esperança reside. A premissa subjacente é que, com decisões políticas mais sensatas e um melhor entendimento dos trade-offs econômicos, o Reino Unido ainda pode reverter o curso. Para o empreendedor digital, as lições são claras: um ambiente econômico mais livre e com menos burocracia é fundamental para a inovação e o crescimento, enquanto o excesso de intervenção e impostos pode minar as bases de qualquer negócio, seja ele online ou físico.
Com informações de youtube.com.
